Chope artesanal, música e pequenos negócios se encontram todas as quintas-feiras em uma calçada no bairro Petrópolis.
Às cinco da tarde, a rua Bem-Te-Vi, no bairro Petrópolis, em Manaus, ainda guarda o ritmo comum de um fim de expediente. Pouco depois das 19h, o cenário muda completamente. Cadeiras de praia ocupam a calçada, tonéis servem de mesa, copos brindam entre desconhecidos e um cavaquinho embala conversas que logo deixam de ser entre estranhos.O encontro acontece todas as quintas-feiras e já ganhou nome próprio: Araras na Calçada.
O que começou como uma alternativa para vender chope artesanal transformou-se em um espaço de circulação cultural, fortalecimento de pequenos empreendedores e construção de comunidade em plena Zona Centro-Sul da capital amazonense.
Do fim ao recomeço
A história do Araras começou em 2024, quando o encerramento das atividades da cervejaria onde Aluísio Santos e Crislainy Alves trabalhavam abriu espaço para um novo projeto. Amigos e colegas de trabalho, os dois decidiram transformar a experiência que já tinham no setor em um negócio próprio.
“Olhamos um para o outro e nos perguntamos: por que não criar uma cervejaria com a nossa personalidade, do nosso jeito? A resposta foi simples e assim nasceu a Cervejaria Araras”, relembra Crislainy.




A primeira produção saiu em novembro daquele ano e passou a ser vendida em uma feira de produtos orgânicos. A experiência, porém, durou pouco. Com a mudança do evento para um espaço federal, a comercialização de bebidas alcoólicas deixou de ser permitida.
Da incerteza ao encontro
Sem um ponto de venda, os empreendedores precisaram reinventar o negócio. O antigo sonho de servir chope em uma Kombi parecia cada vez mais distante, até que amigos ligados ao Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA/MCTI) sugeriram ocupar a calçada em frente ao órgão nas noites de quinta-feira.A ideia parecia arriscada.
“Foi a primeira vez que estaríamos sozinhos, sem o apoio da feira e sem saber se as pessoas apareceriam. Mas fomos na cara e na coragem”, revelou a empreendedora.

Foi na terceira edição que o encontro ganhou nome. Ao chegar ao local, uma amiga perguntou: “Hoje vai ter Araras na Calçada?”. A pergunta, feita de forma espontânea, acabou batizando oficialmente o projeto.
Muito além da cerveja
A cada quinta-feira surgiam pequenas melhorias. Vieram as cadeiras de praia, a iluminação com varais de luzes e um ambiente pensado para que as pessoas permanecessem mais tempo conversando.
“O boca a boca fez o restante. Motoristas reduziam a velocidade para descobrir o que movimentava uma rua normalmente tranquila. Encontravam uma Kombi servindo chope artesanal, música ao vivo e um ambiente onde a conversa ainda acontecia olho no olho.
Foi quando os próprios fundadores perceberam que o empreendimento havia ultrapassado a lógica comercial. “Hoje entendemos que o Araras na Calçada não é apenas sobre cerveja. A cerveja foi o motivo inicial. As pessoas são o que realmente transformaram aquele pedaço de calçada em algo tão especial”, afirma Aluísio.

Segundo ele, quem chega sozinho dificilmente vai embora da mesma forma. Entre uma mesa improvisada e outra, já nasceram amizades, parcerias profissionais, comemorações acadêmicas, aniversários e novos projetos.
A bióloga Rafaela Gurgel, frequentadora do evento, também percebeu essa mudança na dinâmica do instituto. “O instituto tem poucos eventos para aproximar as pessoas. São três prédios e o Araras é uma ótima oportunidade para juntar não só as pessoas do instituto, mas também os amigos que vêm de fora.”
Para Rafaela, o encontro também acabou se tornando uma porta de entrada para quem passa pela região e não conhece o instituto.
“As pessoas acabam parando, ficando e conhecendo até mesmo o próprio INPA. O evento chama atenção e faz as pessoas perceberem que ali existe um espaço de convivência.”
A calçada como palco
A música ao vivo é outro elemento que compõe a experiência do Araras na Calçada. Nas noites de quinta-feira, apresentações dividem espaço com o chope artesanal e as conversas, ajudando a transformar uma reunião entre amigos em um encontro que reúne diferentes públicos.
O engenheiro de software Wanderson Mendes conheceu o evento a convite de uma amiga e se surpreendeu com a maneira como uma simples calçada pode assumir, por algumas horas, outras funções. “Hoje, já não percebo onde termina a calçada e começa o palco. Ou seria o inverso?”, brincou.




A imagem resume a transformação daquele trecho da rua Bem-Te-Vi. O espaço que durante o dia serve à circulação de moradores ganha, à noite, cadeiras, música, bebidas e encontros. Para Wanderson, o resultado é uma experiência marcada pela descontração e pelas conexões que surgem de maneira espontânea.
Uma nova ocupação da cidade
O Araras na Calçada também revela uma nova maneira de ocupar a cidade. Em vez de depender de uma estrutura comercial tradicional, o empreendimento transformou uma calçada em ponto de encontro e, ao redor dela, passou a reunir música, consumo e outros pequenos empreendedores.
A rua, que durante o dia serve à circulação de moradores, ganha à noite cadeiras, música, bebidas e encontros. Por algumas horas, a fronteira entre o espaço de passagem e o espaço de convivência parece desaparecer.

Quando a última música termina e as cadeiras começam a ser recolhidas, sobra pouco da estrutura que ocupou a rua. Na quinta-feira seguinte, porém, o cenário volta a se repetir. Entre um copo de chope, uma roda de samba e novas conversas, a calçada ganha novamente outro significado.
Nas quintas-feiras, o happy hour tem lugar certo. E nome também: Araras na Calçada.





