Na floresta, no quintal e na memória: como a Nawê transforma sabores amazônicos em sorvetes artesanais

Da fruta colhida nos quintais de Manaus ao chocolate de cacau nativo, sorveteria aposta na sociobiodiversidade, agricultura familiar e criatividade para valorizar ingredientes amazônicos em cada receita.

Um sorvete pode contar histórias e, também, pode preservar memórias da infância, fortalecer comunidades rurais, incentivar a agricultura familiar e apresentar novos sabores a quem acredita que sorveteria se resume a sabores cada vez mais industrializados e sem a afetividade.

Nina Best – CEO da Nawê Sorvetes Artesanais, na Bioeconomy Amazon Summit 2026 Belém (PA).

Foi justamente pensando em resgatar essa proposta mais sensível dos amazônicos que a Nawê Sorvetes Artesanais, de Manaus, construiu sua identidade a partir da biodiversidade amazônica e dos ingredientes produzidos na região.

“Vendemos sorvete artesanal de qualidade. Mas, desde o início, a maior preocupação foi trabalhar com ingredientes da sociobiodiversidade e da agricultura familiar”, explica a fundadora da Nawê, Nina Best. 

Para a empreendedora, o mote principal é trabalhar com frutos dos quintais de Manaus, como a carambola, cupuaçu, graviola, jambo, manga, sendo frutas que já fazem parte da paisagem urbana amazônica.

Segundo ela, utilizar essas frutas é também uma forma de reconhecer um patrimônio invisível da capital amazonense. “Manaus é uma das cidades menos arborizadas do Brasil. Valorizar essas árvores frutíferas é uma forma de reconhecer esse território”, frisou.

O sabor da fruta em primeiro lugar

Para a Nawê, o protagonista não é o leite nem o creme. É a fruta! Por isso, boa parte do cardápio é composta pelos chamados sorbets, sorvetes à base de água que preservam melhor o sabor natural dos ingredientes. “Sinto muita falta de sorvetes de fruta mesmo. Então, uma das prioridades da Nawê tem sido produzir sorbets, que dão ênfase ao gosto da fruta, como se você estivesse comendo a fruta geladinha’’, destaca Nina.

Para ela, reduzir o excesso de gordura láctea permite que os sabores apareçam com mais intensidade. “Menos creme, menos gordura láctea, que às vezes camufla um pouco esses sabores. A proposta era trazer de volta alguns sabores que fazem parte da nossa infância manauara. Um bom creme de cupuaçu, um bom sorvete de amendoim, valorizando os processos artesanais”, relembra.

Produção artesanal do começo ao fim

Na cozinha da Nawê, praticamente tudo é produzido internamente. As frutas são processadas, assim como geleias, caramelos e caldas. A marca reconhece que o sorvete, em sua essência, é um alimento ultraprocessado. Justamente por isso, busca reduzir essa característica ao máximo.

Um sorvete amazônico até quando é cheesecake

Apesar de priorizar ingredientes locais, a Nawê também brinca com referências internacionais. A ideia é adaptar receitas conhecidas ao universo amazônico. “O sorvete não é daqui. Então fazemos uma apropriação cultural, transferindo para o sorvete os nossos sabores. “É o caso do cheesecake de cupuaçu. Misturamos geleia de cupuaçu, puxuri, cumaru e castanha. É isso que dá a essência amazônica dentro de um sorvete de cheesecake”, revela a dona da Nawe.

Esqueça o pistache. Experimente castanha!

Um dos desafios enfrentados pela sorveteria é convencer o consumidor a experimentar ingredientes regionais no lugar de sabores tradicionais.

Para Nina, falta comunicação sobre o potencial dos ingredientes amazônicos. “Temos ingredientes maravilhosos, mas ainda não sabemos executá-los e apresentá-los. Um bom produto com uma boa comunicação consegue romper essas barreiras”, conta.

“Sempre que me solicitam um sorvete de morango, eu ofereço alguma fruta regional. Quando solicitam pistache, ofereço castanha. Então, não faz sentido utilizar um morango que viajou milhares de quilômetros e perdeu qualidade. Prefiro trabalhar aquilo que o território oferece”, defende.

Chocolate amazônico, não belga

Até mesmo o chocolate utilizado nas receitas segue a mesma filosofia. A Nawê utiliza cacau amazônico produzido pela Na’kau-Chocolate Amazônico, iniciativa que trabalha com produtores de cacau nativo e comunidades da floresta.

De acordo com a CEO da Nawê, a escolha vai além da qualidade gastronômica. “Hoje utilizamos chocolate amazônico de verdade. Não é chocolate belga. A proposta principal é valorizar o que é nosso”, enfatiza.

Outro pilar da sorveteria é a compra direta de produtores da agricultura familiar. Além das frutas mais conhecidas, entram em cena ingredientes pouco explorados comercialmente.

Entre eles estão cubiu, mangarataia, banana pacovã, taperebá, maracujá e diversas plantas alimentícias não convencionais (PANCs). “São frutos que fazem parte desse cinturão verde que alimenta Manaus. Assim, fortalecemos também os agricultores envolvidos”, completa.

Nawê Sorvetes

Horários de atendimento: Quarta a sexta – 10h30 às 17h30 | Sábado – 10h às 16h30
Instagram: @nawesorvetes

WhatsApp: Quintal da Nawê e pedidos