Integrando a mostra gratuita “O Cinema de Fidel Graça” no Cine Teatro Guarany, em Manaus, a obra faz um diagnóstico detalhado da sonoridade criada no interior dos seringais e que se tornou a trilha sonora de gerações pela Amazônia.
Das festas nos seringais às transmissões de rádio, a história do ritmo genuinamente amazônico ganha novos capítulos de difusão. Após sua estreia marcante no município de Borba, o documentário “Beiradão – O Ritmo do Interior”, idealizado pelo cantor e compositor Fidel Graça, amplia sua circulação e ganha exibição gratuita na capital amazonense neste sábado, 19 de setembro, no Cineteatro Guarany, localizado no Centro de Manaus (anexo ao Centro Cultural Palácio Rio Negro), reforçando a valorização desse patrimônio cultural.
Contemplado pela Lei Aldir Blanc (Prêmio Feliciano Lana), o registro audiovisual resgata as origens e influências da chamada música de beiradão através de depoimentos de personalidades e mestres da cena regional. A obra traça o impacto da sonoridade criada no interior dos seringais — guiada pelo encontro marcante das guitarradas com os saxofones — e sua consolidação no ecossistema musical do Amazonas.
Memória, identidade e territorialidade
A obra traz entrevistas com nomes como Aurimar Ribeiro, Diquinho do Sax, o maestro e pesquisador Cláudio Abrantes, Edvar Souza, Eliberto Barroncas, Neil Armstrong, Otávio de Borba, Serginho Rendres e Ricarth Donna, além de empresários e agentes locais como Toinho Cidade, Bruno Souza e Antônio Graça.
“É um trabalho que valoriza os artistas, a cultura e a história de Borba e do Amazonas. O documentário tem, acima de tudo, um cunho educativo. O maestro Cláudio Abrantes, por exemplo, conta como um instrumento tão sofisticado como o sax foi parar nas comunidades ribeirinhas”, destaca Fidel Graça.
Apesar de ganharem projeção nas capitais com a popularização do rádio, as tradições festivas nos beiradões remontam ao período do ciclo da borracha. Como aponta o pesquisador Eliberto Barroncas, a falta de emissoras na época fazia com que os trabalhadores criassem suas próprias festas e dinâmicas sociais nos seringais, transformando a música em um elemento essencial de sobrevivência e comunidade.
Circulação na capital
Filmado entre Borba e Manaus, “Beiradão – O Ritmo do Interior” conta com codireção de Luiz de Almeida, edição e sonoplastia de Thiago Alencar e trilha sonora inédita assinada por Fidel Graça com produção de Anderson Cantalice.
A exibição no Cineteatro Guarany, consolida o percurso da produção em aproximar o público da capital das narrativas e memórias do interior. A sessão integra as ações de difusão do audiovisual amazonense e reafirma o beiradão como patrimônio e pilar da identidade cultural do estado.

A origem
O som, meio caminho entre o instrumental e o cantado, desenvolvido nos chamados “beiradões”, como são conhecidas as festas das comunidades de beira de rio amazônicas, ganha um novo olhar de Fidel Graça, que se diz satisfeito com o resultado do documentário.
“É um trabalho que valoriza os artistas, a cultura e a história de Borba. Foi um processo árduo, com grande dificuldade de gravar na pandemia, mas o esforço valeu a pena. O documentário tem, acima de tudo, um cunho educativo. O maestro Cláudio Abrantes, um dos entrevistados, conta como um instrumento tão sofisticado como o sax foi parar nas comunidades ribeirinhas do Amazonas”, disse Graça.
Apesar de se tornarem mais conhecidas entre os manauaras com as transmissões das rádios, essas tradições festivas nos beiradões datam de um período em que essa mídia nem existia. Eliberto Barroncas chama atenção para isso em entrevista publicada na dissertação de mestrado do pesquisador Rafael Norberto: “A música do beiradão aconteceu desde a época da borracha, quando os nordestinos vieram para cá. Não existia nessa época rádio, então eles tocavam, faziam as próprias festas, dançavam homem com homem no seringal, pela ausência de uma vida social com mulheres. Dançavam com mulher, mas também dançavam homem com homem”, aponta.
Genuinamente amazônico
Além de traçar os caminhos relevantes ao envolvimento dos músicos locais, dentro das realidades sofridas nestas regiões distantes dos centros urbanos, a obra também tem valor sentimental ao idealizador. “A música de beiradão tem um significado muito especial pra quem é do interior, é algo indescritível. Parece estar no DNA do caboclo; em Borba, você sente a energia e a magia quando se toca o sax. Eu quis mostrar a cara de Borba e homenagear os artistas que são minha inspiração”, afirma Graça. “Beiradão – O Ritmo do Interior” foi filmado em Borba e parte em Manaus, e tem codireção de Luiz de Almeida, edição e sonoplastia de Thiago Alencar e música inédita pelo próprio idealizador. “A música tema é um beiradão inédito, de minha autoria, produzida por Anderson Cantalice (também assistente de direção), gravada em Borba”, conta o diretor do documentário.

A obra tem produção da ML Produções, e, além do citado Cantalice, foram assistentes de produção Wildley Colares e Marcelo Gomes. A captação de imagens é mais uma das funções de Graça, que também dirigiu a fotografia e escreveu o roteiro (com Luiz de Almeida), tendo imagens de apoio de Maurício Motta.
*Com informações da assessoria








